11 janeiro, 2007

Revista Palmares

Essa aí é a revista Palmares n° 02, hip hop, literatura e cultura negra em geral. Participações: Elizandra, Nelson Maka, Sacolinha, Sérgio Vaz, e muito mais. Procure a sua.

10 janeiro, 2007

Rejane Barros

Uma história em canção

Passarinho que canta longe,
Vem cantar a minha dor
A canção é muito triste,
Pois reflete quem eu sou;

A história foi assim,
Era só eu e você!
Mas o destino decretou
Que eu devia te esquecer!

O nosso amor ficou aqui,
Em meu peito está cravado
Não consigo entender
Que você virou passado

Fui feliz naquele instante,
No segundo que te encontrei
Pois havia encontrado,
O alguém que sempre amei!

Você dentro dum caixão,
Não consigo aceitar
Até hoje não entendo,
Que perdi você pro mar

Uma onda traiçoeira,
Que roubou você de mim
E levou o meu tesouro,
Que é você meu querubim!

E você partiu primeiro,
Com a certeza que parto atrás
Prometi isto às estrelas:
“Sem você não vivo mais!”.

Rejane da Silva Barros

09 janeiro, 2007

Novo Conto

Quem tem medo de cagar não come!
Texto publicado originalmente no site Rap Nacional
(Por: Sacolinha)

Já saí da casa dela chateado. Estava lá desde sexta-feira á noite, pra sair no domingo de tarde sem nem uma rapidinha.
Logo eu que estava acostumado.
Ela sempre dava um jeito, ou era no terraço ou na sala, enquanto seus pais estavam assistindo tv no quarto. Mas nesse fim de semana não deu. A filha da mãe disse que estávamos arriscando demais.
- Tudo bem.
Tudo bem pra ela que tem alto-controle, que é mais fácil de segurar.
Mas mal eu sabia que tudo estava apenas começando. Minha namorada me levou até o ponto de ônibus, que o meu carro estava no mecânico. Evitei beijos mais ousados para não piorar a situação. Embarquei e fui sentar no último banco. Adoro ter uma boa visão atrás de todo mundo, só não gosto que tenham boa visão atrás de mim.
O calor estava insuportável, e o suor já começava a descer pelo rosto. Não via a hora de descer daquele veículo barulhento.
Desembarquei com aquela sensação de estar esquecendo alguma coisa, mas nem dei atenção. Corri para pegar o trem.
Passando na catraca da CPTM a danada apita:
- Ah, vai se lascar.
A funcionária veio:
- Calma moço, tenha paciência.
- Paciência nada, isso acontece sempre, já sou pós-graduado em ser barrado nessas catracas. Além de travar, ainda fica apitando.
Enquanto ela analisava o meu bilhete, o trem que eu iria pegar encostou na plataforma.
- Senhora, me desculpe, mas eu não posso perder esse não.
Pulei a catraca e subi as escadas quase tropeçando. Quando passava por alguém, esse olhava assustado achando que eu estava fugindo.
Quando ia descendo a última escada para a plataforma, o trem apitou sinalizando o fechamento das portas. Gritei para alguma alma boa:
- Seguuuuuuuuuuuuuuuuuuuura. Segura a porta.
Ninguém fez o favor. Ia tentar abrir uma porta no braço, mas o trem partiu.
Praguejei pra Deus e o mundo. Xinguei até a Xuxa, mesmo sabendo que ela não tinha absolutamente nada a ver com aquilo.
Sentei chutando a merda do banco que estava á minha frente, como se ele estivesse rindo da minha cara.
E de repente chega um segurança:
- Pode voltar e pagar a passagem.
- Ah, vai se fo...
Segurei, pensei e resolvi não arrumar encrenca.
Voltei na catraca, fui na bilheteria, comprei uma passagem, passei e fui até a funcionária que havia ficado com o bilhete que tinha travado.
- Por favor, me devolve o bilhete, ele não passou aqui, mas pode passar em outra estação.
Novamente na plataforma calculei o horário do próximo trem. O intervalo durante a semana era de quinze em quinze minutos, isso quando obedeciam. E aos domingos e feriados era de trinta em trinta.
Já iam dar seis horas da noite. Peguei um livro na mochila e tentei me concentrar na leitura, coisa que foi difícil. Tinha tanta coisa pra fazer; estudar para a prova de segunda, fazer trabalho de teoria literária, que por mais que você goste acaba enchendo o saco. Tenho de responder umas cartas, terminar de ler um livro e dar a minha opinião aos editores, tomar banho, jantar, assistir um documentário e muitas outras banalidades que não vale a pena citar aqui. Só não ficaria sem me masturbar aquela noite. Isso não.
O trem chegou e eu não consegui ler nem duas páginas.
Entrei e me acomodei ao lado de uma moça que segurava a sua criança. Só sentei ali porque não havia outro lugar, pois morro de medo de criança em transporte coletivo nos fins de semana. Elas vivem de barriga cheia de lanches do passeio e um transporte como o trem em movimento de um lado e de outro só contribui para que elas coloquem tudo pra fora. Ai de quem estiver perto.
Mas a criança estava quietinha e não vomitou. Só me fez lembrar de uma coisa; ela estava com um celular de brinquedo nas mãos, que eu não via a hora de acabar logo a pilha, e que me fez levar as minhas mãos aos bolsos da calça.
- Putaquelamerda.
Sussurrei baixinho, é claro.
Então era isso que estava me deixando com a sensação de esquecimento.
Fiquei desinquieto a ponto da moça ao meu lado se incomodar. Preferi ficar sossegado, já estava dando tudo errado mesmo. Na estação Barra Funda eu compro um cartão e ligo para o meu número pra saber quem achou e onde eu perdi.
- E se ficou na casa da minha namorada?
Ai, ai, ai. Vai que liga alguma mina me procurando. Do jeito que a Vânia é ciumenta é capaz dela chamar a outra de vadia e ainda jogar o celular no chão.
- Tô frito.
O trem chegou na estação Barra Funda e eu corri para comprar um cartão, que aliás, tá caro pra cacete. Fui até um orelhão e liguei para o número umas cinco vezes. Ninguém atendeu. Liguei para a casa da minha namorada e perguntei se não havia esquecido por lá. Também não.
Bom, como já estava ficando tarde, resolvi continuar minha viagem, e a Vânia ficou de ligar ao meu celular para ver se alguém atendia.
Embarquei noutro trem até a estação Luz e lá baldeei para o trem que me deixaria em guaianases para a última baldeação. Aja trem.
Dividi o banco com uma mulher que falava no celular e pensei: “Bom, daqui á pouco ela desliga, aí dá pra mim ler”.
O vagão começou a lotar e a composição nada de sair. De repente sobe um cheiro de mijo de arder as narinas e, como eu havia acabado de sentar, a mulher começou a fungar e olhar pra mim. Ainda falou no celular:
- Nossa menina, entrou um pessoal aqui que tá com um fedor de mijo...
Só balancei a cabeça negativamente, na certa a filha da puta estava achando que o mal cheiro vinha de mim.
O trem partiu. Abri o livro, suspirei e comecei a ler. Aprendi a me concentrar na leitura em locais públicos, lia em qualquer lugar, talvez até em salão de baile, mas a conversa da mulher no celular estava tão mesquinha e sem conteúdo que acabei me irritando. E ela ainda olhava pra mim fungando aquele nariz cheio de pêlo.
Fechei o livro e comecei a prestar mais atenção naquela conversa fiada, pra ver se dava para tirar proveito dela, talvez escrevendo algum texto mais tarde.
E, acreditem, a mulher foi descer na estação de Itaquera, e ainda saiu falando no celular. Mais de cinqüenta minutos falando sem parar. Provavelmente ligou á cobrar para a amiga, ou as duas estavam aproveitando a promoção de fim de semana da operadora. Só rindo.
Na mesma estação embarcou um senhor que já estava pra lá de “marraquechi”.
- Eita, o véio tá bebim, bebim. - Ouvi alguém dizer.
Então desisti do livro logo de uma vez e guardei na mochila.
O senhor que estava com uma latinha de cerveja na mão, começou seu espetáculo cutucando dois jovens que conversavam encostados á porta.
De início os dois deram atenção, mas depois que o velho começou a encheção de saco eles deram um chega pra lá. O bêbado então gritou:
- Ôpa, quem tem medo de cagar não come, quem tem medo de cagar não come.
E insistiu na conversa com os jovens. Falava tudo enrolado, ninguém entendia nada. A não ser a frase que ele soltava de dois em dois minutos:
- Quem tem medo de cagar não come, quem tem medo de cagar não come.
E começou a cantar. Juntava músicas antigas com novas, Tim Maia com banda Kalypso e Elis Regina com Frank Aguiar. Era um bailão danado. E eu pensando na frase que um amigo me disse certa vez: “Nóis sofre, mais nóis goza”.
O bêbado cantando, sem esperar, o maquinista dá uma freada brusca. O velho caiu, mas não largou a latinha, que espirrou cerveja nos dois jovens. Praguejaram e xingaram o bêbado de tudo quanto é nome. Os dois foram encostar em outra porta. Mas ele levantando do chão, só conseguia dizer:
- Quem tem medo de cagar não come, quem tem medo de cagar não come.
E foi para perto dos jovens novamente, cutucando-os e repetindo a frase. Os dois pareciam muito pacientes com todas as pessoas ali no vagão, ora rindo, ora pedindo um linchamento no velho.
Os dois pararam de conversar e começaram a trocar olhares, que foi se revelar na próxima estação quando abriu as portas. Eles puxaram o bêbado pra fora e derrubaram no chão. O trem partiu, deixando o velho na estação errada a resmungar:
- Quem tem medo de cagar não come, quem tem medo de cagar não come.
Chegamos em guaianases e fora a espera, o restante ocorreu normal. Desci na minha estação com a mochila pesada a castigar as minhas costas. Lembrei da palestra que dei na sexta de tarde, antes de ir para a casa da minha namorada. Levei bastante livros para vender, mas nem os organizadores da atividade compraram. Na próxima vez eu cobro a palestra.
Vi partindo o ônibus que eu iria pegar, corri. O motorista me viu acenando, mas não parou.
- Maldito desgraçado. Que você tenha uma morta lenta e dolorosa.
Sentei esbaforido numa guia de calçada. Tirei a mochila das costas e joguei no chão. Por um instante passei todo aquele fim de semana na minha mente.
“Num vendi livros, minha namorada com frescuras, os atrasos, a perda do meu celular, a louca tagarela ao meu lado me fungando, o bêbado, o motorista do ônibus me sacaneando e um monte de trabalhos em casa”.
E hoje ainda é domingo, a semana está apenas começando. Meu Deus, pra que que eu fui nascer?
Pensei em me afogar na cachaça e ser feliz igual o velho, mas as responsabilidades é que não deixam. Fui me envolver num monte de coisas. Olha aí o que dá.
Mas me contentei em sentar no ponto de ônibus, abrir o livro e aguardar o próximo transporte. Afinal de contas, quem tem medo de cagar não come.

Sacolinha!

08 janeiro, 2007

Órfão

(Francis Gomes)

Observo luzes piscando em vários lugares.
Em edifícios, em casas em árvores.
Formando figuras em diversas cores.
Verdes, azuis, vermelhas, amarelas,
Em forma de anjos, estrelas, sinos e velas.
Enquanto eu martirizo-me nos meus dissabores.

Crianças em suas casas olham para o céu...
Pedem não a Deus, mas a papai Noel,
O presente de sua ilusão.
Todavia eu, sem casa, sem lar,
Suplico, imploro, para ver se alguém me dá,
Um miséro pedaço de pão.

Quem pode, compra pernil, peru para a ceia.
Vinho, champanhe, tudo que a carne anseia.
Viaja, festeja, comemora.
E eu, sem amigos, sem família, sem ninguém,
A espera de um presente que não vem,
Sem honra vou mendigando pelo o mundo afora.

Uns compram, não porque precisam, por vaidade.
Eu, eu vendo minha dignidade,
Pelo o preço que a fome cobra.
E fazendo parte deste abandono,
Sinto-me um cão esquecido pelo o dono,
Comendo das migalhas que lhe sobra.

Todos, todos olham as luzes piscando,
Mas para mim, quem está olhando?
Eu me pergunto olhando para o céu.
Senhor, Senhor não me queira mal,
Observe, observe Senhor, é época de natal,
Mas onde está meu papai Noel?

Ah! Perdoe-me, é que às vezes eu esqueço,
Que ele não sabe meu endereço,
E por isso não pode me atender.
É que nesta angustia que me abrasa,
Eu esqueço que não tenho casa,
Nem chaminé por onde ele possa descer.

Todos, todos tem o direito de nascer,
Tem o direito de viver
Mas ninguém tem o direito de ser esquecido.
Se eu soubesse que viver era tão ruim,
Que até papai Noel se esqueceria de mim,
Eu juro, juro que não queria ter nascido.

Por que, por que, que mamãe não me abortou?
Já que ao me ter me abandonou,
Como se eu fosse a perdição de sua vida!
Porque melhor me fora não ter nascido,
Do que nascer para depois ser esquecido,
Como uma coisa que alguém deixa caída.

Mas eu nasci, nasci, e agradeço ao Senhor,
Pois eu penso , se Ele me enviou...
É porque tenho uma missão para cumprir.
É verdade para muitos nem existo,
Mesmo assim, eu agradeço a Jesus Cristo,
Pelo simples direito de existir.


Francis Gomes
tchekos@ig.com.br

04 janeiro, 2007

Crônica do Vital

Cada um com seu final de ano!
Renato Vital
Invadem o morro, são recebidos a bala, troca de tiro que não pára. Desnorteada a polícia não sabe se avança, se fica onde está ou se vai embora. Fora dolocal de combate, a elite se alegra com o final deano, presentes, perus, chesters, comidas, champanhes e tudo de mais luxuoso. No cantinho solitário a empregada observa tudo ela é o submundo, ela é o periférico, ela é a serviçal, ela é a mão de obra, ela é o nada. Essa mesma empregada pensa em seus dois filhos que moram no local da guerra urbana, um é policial o outro preferiu ser traficante. Mas o amor pelos dois é o mesmo.
A imprensa mete o pau, as rádios de am condenam, os jornais pedem pena de morte, os políticos de férias, não querem nem saber de trabalho. O novo (velho) presidente, pensando no dia de sua posse, seusmercenas puxa-saco, pensando em sair bem na foto, em conseguir cargos no legislativo, conseguir casas na praia, no ano novo que vem chegando, sítios, pousadas, e tudo mais em que não envolva uma raça chamada povo. O Bush pensando qual país atacar em 2007, pensando qual tipo de mãe ele vai fazer chorar mais uma vez, qual rio de sangue vai boiar corpos, qual histórinha vai contar para o alienados. O Saddam Russein em contra-ponto, pensando qual dia será o da sua morte, ou melhor qual o dia de presentear o George W. Bush.Os iraquianos não planejam futuros, nem sequer sabemse terão suas vidas amanhã, nem sequer sabem se um diaterão sua soberania de volta. A Palestina chora. Olíbano chora. O Irã se prepara para uma possívelguerra. As praias estão lotadas, algumas cidades nordestinas, antes do ano novo sequer visitadas, também. O alunos vibram com as férias. Pobres fazendosuas últimas compras para o Reveillon. Ricos fazendomais compras para o Reveillon. A fábricas de fogos de artíficio lucrando com o Reveillon.
O escritores periféricos, mais uma vez teimando emsonhar, o Sacolinha teimando em sonhar, o Alessandro Buzo teimando em sonhar, o Férrez, Dinha, Sérgio Vaz etc, todos ainda sonham.
Eu além de sonhar, penso nos dias que virão, não quero saber de moeda de troca, eu quero é aquela PAZ, que um dia me fez sonhar, eu quero aquela PAZ, que todos fazem questão de não olhar, eu quero aquela paz que fizeram questão de matar. Eu quero o Hip-Hop mais unido, o povo mais unido, eu quero justiça para os feridos. Eu quero a Paz em 2007, e é isso que eu desejo pra todos os consumistas, direitistas, carniceiros e oportunistas. E principalmente Paz para os meus verdadeiros amigos.
Obrigado.

Crônica do Pezão

Entre Deus e o Diabo, a cruz política.

Marco Pezão

Quando Pelé era ministro, e a idéia dos bingos ganhou pernas para serem instalados definitivamente em solo nacional; tendo como base que parte dos lucros seriam destinados ao programa de incentivo ao esporte amador, não vi mal algum.
Pior, acreditei que seria possível.
Vieram máquinas caça níqueis e pensei: Joga quem quiser...
Ledo engano. Ledo engano.
Hoje, parado diante do vídeo, apostando que a sorte irá me sorrir, mesmo depois do halloween levar os cem reais que estavam a pouco no meu bolso, arrisquei em ato de desespero a última nota de dez e refleti: Ouro de tolo, jogo é coisa do diabo!
Tomei mais uma cerveja a fim de ludibriar o pensamento e, quem sabe, amenizar a raiva de mim comigo.
Ao lado, uma dezena de pessoas compartilha o ato de apertar o botão e ver passivamente a tela girar.
Meu instante pareceu se prolongar indefinidamente. Um riso de deboche e uma sarcástica voz, apenas eu ouvia: Idiota!
Eu via o que não via...
Tomando a forma de crescente mancha vermelha, vi vícios e a degradação se espalhando pelas ruas da paulicéia. Casas de prostituição e igrejas servindo no mesmo prato, o céu e o inferno.
Viadutos rompendo-se em fabulosos precipícios. Arco íris transformado em espirais de fogo, simultaneamente, desfigurando a rosa dos ventos. Tempos outros. Sem futuro, nem passado. E o presente sob o pinheiro enfeitado anunciando à proximidade do natal.
Havia uma varanda no alto de um prédio e nela, o finado Tancredo Neves, dizia: “Enquanto houver um brasileiro sem pão e sem trabalho, toda sinceridade será falsa”
Sentado na cadeira de balanço a olhar estrelas em dia claro, eu plagiava o poema de Mario de Andrade e oferecia taxativamente a silenciosa multidão:
“Eu insulto o político! O político-níquel. O político-político! A digestão bem feita de São Paulo! O homem-curva! O homem-nádegas! O homem que sendo europeu, brasileiro, americano, é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias! Os barões lampeões! Os condes Joões! Os duques zurros! Que vivem dentro de muros sem pulos e gemem sangues de alguns reais fracos. Eu insulto o político funesto! O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições! Fora os que algarismam os amanhãs!
Morte ao salário abusivo! Morte ao salário mínimo. Morte às adiposidades cerebrais! Morte ao político-mensal! Morte ao político-burguês! Morte ao político-operário. Ao político-cinema! Ao político-passagem, aquele que nunca sabe de nada.
Come! Come-te a ti mesmo. Oh! Gelatina pasma! Oh! Purée de batatas morais! Oh! Cabelos nas ventas! Oh! Carecas!
Ódio aos temperamentos regulares! Ódio aos relógios musculares! Morte e infâmia! Ódio à soma! Ódio aos amigos! As mentiras e invejas. Ódio aos secos e molhados! Ódio aos acertos e enganos! Ódio aos bancos que faturam trilhões. Ódio às invasões via Internet. Ódio às guerras e a paz falsificada... A cultura. A cultura massificante. Ódio.
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio! Morte ao político de giolhos, cheirando religião e que não crê no Divino! Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico! Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom político!”
Instintivamente com uma dedada travei a jogada. Uma trinca de capetas apareceu na linha horizontal. O suor frio que corria a testa estancou. Fiz as contas. Noventa: nove fora, nada. Perdi dez, estou no lucro!
Já era manhã, dia seguinte, e, retornando da padaria onde fui tomar café, só aí caí em mim. Um sujeito ensandecido chutava a caixa plástica de recolhimento de lixo presa a um poste.
O reconheci. Era o cara que jogava na máquina vizinha. Totalmente alcoolizado praguejava os mais terríveis impropérios. Não foi difícil imaginar o tamanho do seu prejuízo.
Entre Deus e o diabo, a cruz política. Esta que carrego. Onde é que eu vou descarregar a minha ira?
Mas, meu Jesus Cristinho, pela fé que me resta, só depende de mim, eu o sei, porém, por via das dúvidas, fazei que eu renasça outro...
É ano novo, e, então, a velha história recomeça...

Marco Pezão

02 janeiro, 2007

Meu testemunho!

Crônica de um jovem salvo pela literatura!

Sou quem sou, graças aos livros, se não fossem eles
eu estaria à sete palmos abaixo da terra.


Nasci numa família onde a leitura vinha em último plano. O máximo que acontecia era um dos meus tios que aos domingos durante o café da manhã abria um jornal, o extinto Diário Popular, e ficava ali a folhear durante horas. Mas isso não durou muito, pois ele acabou ficando desempregado e o primeiro corte de gasto foi o jornal.
Um outro tio que hoje é padre, fora durante alguns anos, coordenador da sala onde estudava e muito amigo dos professores e diretores. Sendo assim, ganhava muitos livros. Às vezes chegava em casa com uma caixa fechada de livros novos. E eu nem aí com nada. Só queria mesmo era saber de empinar pipa, jogar bolinha de gude, rodar pião, brincar, brincar e brincar. Lembro que o primeiro livro ao qual fui obrigado a ler (e não li) foi indicado pela professora de literatura quando eu estava na quinta série. Ela passou o livro no início do bimestre e no fim dele iria dar uma prova. O tempo foi passando e nada de eu ler o livro. Até que num domingo, que antecedia a prova, eu resolvi pegar no livro, antes, porém, havia perdido a pipa que empinava. Então lá fui eu, naquela tarde calorosa, onde o céu azul era completado pelas pipas e pelos pássaros que voavam no ritmo do vento. Peguei o livro, observei a capa, vi a página de rosto, li a primeira página, passei para a página do meio, e... Olhei para um lado e para o outro, fui até a página final, li e fechei o livro satisfeito.
- Bom, dá pra tirar metade da nota. – Pensei sorridente.
No dia seguinte a professora mal deu bom dia e tome-lhe prova.
Resultado: não consegui responder nenhuma pergunta.
Com isso, eu cheguei a conclusão de que quando se faz algo que é obrigatório, não rende e não se produz nada.
Em 1998 mudamos de Itaquera para Suzano e mesmo assim continuei trabalhando como cobrador de lotação onde eu morava, e pra isso pegava os trens da CPTM às quatro da manhã. Só que três anos depois, chegou um momento que eu não agüentava mais ficar olhando para cara das pessoas dentro do vagão, e não conseguia cochilar. Precisava fazer alguma coisa para passar o tempo, aquilo ali estava ficando um marasmo dos diabos; as pessoas quando não estavam dormindo, ou estavam jogando baralho (e eu até hoje não sei jogar, a não ser o 21 que, muitos conhecem pelo nome de burrinho), ou fofocando ou falando das novelas. E foi então que comecei a prestar atenção n’algumas pessoas que liam livros ou riscavam revistas de passatempos.
Pedi um livro para o meu tio que tinha vários debaixo de sua cama. Ele negou dizendo que eu não iria ler, e que iria era estragar os livros.
- Deixa estar, eu dou um jeito. – Disse para mim mesmo com um riso sarcástico.
E foi quando ele deu uma saída, entrei no quarto e peguei um livro.
Comecei a ler no trem apenas para passar o tempo. Alguns dias depois eu já reclamava quando a composição chegava na estação de Itaquera.
- Poxa vida, podia ter mais uma estação pra mim ler pelo menos mais uma página...
E virei leitor de fato, lia não mais para passar o tempo e sim por prazer e busca de conhecimentos. E assim os livros foram sumindo das caixas debaixo da cama do meu tio.
Até hoje ele não sabe disso, aliás, até o momento que ler esse texto.
Sempre fui bom em redação, escrevia histórias com muita facilidade na época da escola, só não gostava de ler, ou não me ensinaram a gostar. Então comecei a colocar no papel tudo aquilo que via no meu cotidiano. Todas as cenas de injustiças sociais. Assim me sentia vingado, pois estava num momento de inquietação e conflito; meu padrasto havia acabado de desaparecer e eu virara chefe da casa, o único que tinha um emprego (informal), e com 19 anos de idade.
Precisava fazer alguma coisa para me extravasar; ou eu partia para o lado da pólvora (crime) ou para o lado do açúcar (cultura). Optei pelo açúcar, que às vezes é um pouco amargo. Então, todas as coisas que eu tinha pra dizer, colocava no papel em forma de rap ou de texto literário, e não mais me sentia pequeno. A partir daí percebi que eu poderia fazer um estrago muito maior com a literatura, o contrário se eu tivesse ido para o crime.
E assim comecei a ser mais seguro de mim mesmo, dono de minhas atitudes e dos meus atos. E toda vez que eu estou em algum local público e abro um livro, me sinto o todo poderoso, como se eu tivesse o bem mais precioso do mundo; e tenho.
O modo e as técnicas de como escrever eu aprendo lendo, o talento já veio comigo, só preciso aperfeiçoar a cada dia.
Três anos e meio depois de tudo isso, lancei o romance “Graduado em Marginalidade” meu primeiro livro. No ano seguinte (2006) lancei uma obra de contos, intitulada “85 Letras e um Disparo”. Antes, porém, participei de vários concursos literários e fui premiado em muitos deles.
Sou quem sou, graças aos livros, se não fossem eles eu estaria à sete palmos abaixo da terra.
E hoje procuro mostrar a muitas pessoas o que um livro pode fazer na vida de alguém, eles salvaram a minha e continuam salvando.
A literatura também salva. Esse é o meu testemunho.


Sacolinha, é escritor e agitador cultural.
Autor dos livros: Graduado em Marginalidade (romance)
e 85 Letras e um Disparo (contos). Ministra palestras em
escolas, presídios e faculdades. e-mail para contato:
sacolagraduado@gmail.com

Sobre vingança