21 abril, 2009

CATA OSSO

Dinheiro passa em minhas mãos o dia inteiro
Mas o que adianta não é meu
É do patrão
Patrão que me paga no final do mês
O que ele chega ganhar em uma hora
Fico triste, indignado.
Quem manda não estudar
Acordo de madrugada
Na hora do melhor sono
Costela quente, de minha nega.
O cheiro suave de sua pele macia
Penso até em desistir de trabalhar
Inventa uma doença
Uma dor de cabeça
Uma dor de barriga
Só para ficar em casa
Mas vem na mente
Quem vai pagar as contas
Já ganho pouco
E por fim falta
Quem vai dar leite aos bacuris
Não tem jeito, tenho que ir.
Pego minha roupa encima da tabua de passar
Minha nega até reclama
Pega pelo meu braço e tenta puxar para cima da cama
A tentação ou sono até penso em ficar
Dou uns tapas no rosto
Recobro a consciência
Olho no relógio já estou atrasado
Só lavo os olhos e escovo os dentes
Penteio o resto de cabelo
Nem tomo banho
Só para não sair o cheiro de minha amada
De minha pele
Com a desculpa de estar atrasado
Tomo café rapidinho
Dou um beijo nela
Vou até o quarto dos meninos
Estão dormindo parecem anjos
Olho da janela
E saio correndo
Lá vem o cata osso, seus faróis já apontam lá na esquina.
Dou o sinal com a língua de fora
Ele para, entro comprimento o motorista.
Vou para o fundo tem mais alguns companheiros
Comprimento e me junto a eles no cochilo
Dá para sonhar um pouquinho com minha nega
Ao chegar à garagem
Começa a rotina do dia
Entra e saem passageiros
Aqui você vê de tudo
Mulheres bonitas, homens bem vestidos.
Cada um com seu estilo
Crianças choram logo de madrugadinha
Eles choram com saudade de sua caminha
Pena que eu não posso chorar
Saudade de minha cama
As costelas de minha amada
Minha menina, meu pêssego.
O cheiro de sua pele macia
Meu anjo que caiu do céu
O que meus companheiros iam dizer
Vendo-me chorar
De manhã dentro do ônibus parece um jardim
O cheiro suave do perfume e do banho tomado
O batom cheira, a roupa cheira, cabelos cheiram.
Perfumes doces, fortes.
Mas o dia vai passando o perfume que outrora
Passeava entre os bancos
Sai e da entrada pelo o cheiro do suor
O perfume nem passa mais perto
Não importa que seja de mulher ou de homem
É vômito cheiro de mijo.
O mau cheiro sobe
No meio da tarde
Não ha nariz que resista
Mas nós temos que agüentar
Sentados na cadeirinha passando o troco
O suor escorre vai parar no rego
Até um peido você tem que saber a hora de dar
Para não ter nem passageiro por perto
E reclamar
Perante a lei somos todos iguais
Mas dentro do ônibus
Só o passageiro tem vez
Que descriminação é essa só ele pode peidar
A loucura é no final do dia
Não gosto de pensar
Horário de pico
Parece um estouro de boiada
Todos querem entrar no ônibus ao mesmo tempo
E começa o empurra, empurra.
Todos querem sentar
Todos estão cansados
O ônibus lota parece uma lata de sardinha
Mulheres reclamando gritam por causa de algum
Engraçadinho lhe encoxando ou passando a mão.
Um grita de lá do fundo, ta ruim pega um táxi.
A mulher tenta retrucar mais não adianta
O som da risada dentro do ônibus é maior
Do que os gritos dela
Mulheres grávidas, senhoras e senhores de idade.
Reclamam por causa dos jovens
Não lhe darem o lugar para sentar.
Crianças choram por causa do aperto
Outro dia vi uma mãe pegar pelo braço da criança e puxando
E gritando com ela, vai que dá.
A criança chora reclama,
Mãe tá doendo, mas a mãe não escuta.
Eu até tento ajudar na medida do possível
A criança sai do outro lado chorando
Toda amarrotada despenteada
A mãe olha para mim
Cobrador você quase quebrou o braço do meu filho
Eu olho para ela e fico sem palavra
Nesta hora só Deus para me dá paciência
Bom deixa isto para lá
Vamos continuar nossa viagem
Dentro do ônibus você vê de tudo
E sente também
Quer ver a miséria, quando um infeliz esta com dor de barriga.
Começa o aperta-aperta dentro do ônibus
O suor desce, os olhos viram.
E as caretas junto com as cruzadas de pernas
E começa a puxar a cordinha
Dando pulinhos
Parecendo o São longuinho
Tenta descer o fedor sobe
Já não tem mais jeito
À miséria já virou fato consumado
Não a cristo que agüente o mal cheiro
Você olha para a cara do infeliz
Vê o alivio estampado em seu rosto
E a mancha em sua calça
O fedor já tomou conta do ônibus
Passageiros reclamam
Começam a passar mal
O fedor impregna nos narizes
O incrível porque acham que o culpado
É sempre o cobrador por estar sentado
Não vejo a hora de chegar em casa
Estou quebrado de ficar o dia todo sentado
Quando chegar em casa minha nega que me desculpe
Vou jantar em pé não quero ver uma cadeira
Outro dia teve um assalto
Foi uma loucura
Dois pivetes entraram armados
Um apontou a arma para o motorista
E anunciou o assalto
Mandaram os passageiros ficarem quietos
O outro veio até a mim e gritou
Limpe a gaveta não deixe nem um conto
Tudo bem, mas não me mate tenho filhos.
Tu só morre se fazer alguma gracinha
Nesta hora veio na minha mente
Minha mulher, meus filhos.
O que um pai de família passa
Saber que sai de casa, mas não sabe se volta.
Limparam o caixa e foram embora.
Olho no relógio está quase na hora de ir embora
Graças a Deus conto os minutos
Daqui a pouco verei minha família
O ônibus não para de encher
Desce um, entra quatro.
Dentro do ônibus mulheres dão de mamar para seus filhos
Outros escutam músicas
Outros lêem livros, revistas.
Até que enfim o ônibus encosta na garagem
Os passageiros descem
Tenho que entregar a movimentação do dia
Só assim posso ir para casa
Ver minha família
Tomar um banho
Jantar e brincar com os meninos
Assistir uma telinha
Descansar um pouco
E deitar em minha cama
E dormir agarrado em minha nega
Porque amanhar começa tudo de novo
Novos passageiros
Novas estórias
Na vida de um cobrador de ônibus
Cada dia tem um capitulo novo.


Paulo Pereira
paulo.pereira13@isbt.com.br
Associação Cultural Literatura no Brasil

Cidinha da Silva em Suzano