Nova Crônica

Aldebarã

Marco Pezão

Existem fatos, momentos de vida, que, para sempre, ficam gravados na memória. E, por mais que, o cotidiano nos preencha com tantas imposições, num estalo de tempo, aquela antiga imagem se principia novamente em nossa mente.

Lembro-me como se fosse hoje. Terminamos o jantar, uma canja de galinha saborosa feita pelas mãos dela. Ela que conhecia a arte da transformação dos alimentos e seus condimentos.

Comemos, conversamos, e rimos de acontecimentos. Falamos das notícias veiculadas no jornal, que, todo dia, eu trazia da banca. Assim, o noticiário do rádio e tv, que, ela, invariavelmente, se mantinha informada. Também as preocupações do presente e futuro da humanidade fizeram parte daquela conversa; que eu nunca podia imaginar estivesse tão perto de um ponto final.

Depois de assistirmos a novela preferida, nos preparamos para dormir. Estava deitado quando a voz sufocada chamou o nome da companheira, que, de imediato, se dirigiu ao quarto contíguo. E num assombro me chamou depressa.

Vi minha mãe encostada na parede. As mãos sobre o peito, delirante. A palidez tomando conta da cor. A falta de ar. Ficamos assustados e a colocamos na cama. Ai! As perguntas inconseqüentes sobre o que sentia; quase não se podia ouvir a resposta. O que fazer?

Relembro sua última frase, como súplica: “Jesus me ajude”. E eu respondi, sem pensar: “Ele vai ajudar”.

Dito isso, expirou. A alma havia deixado o corpo inerte. E, sofro, e irei sofrer até o fim dos meus dias, por não ter tido o poder de lhe restituir a vida.

Minha mãe morreu em meus braços, e jamais poderei desassociar esta dura realidade enquanto viver.

Dela, porém, vi transferido em mim, o gosto pela leitura. E o hábito de folhear as páginas dos livros, me deram a impressão de tê-la viva ali nas letras impressas. Os livros, por estranho que possa parecer, se tornaram minha segunda mãe. Eles me fizeram compreender as aflições e revoltas. Procriaram o entendimento exterior e interior, na busca do prazer e saber.

Porém, a compreensão nem sempre assoma de imediato. E, entediado ou mesquinho, afastado de tudo e todos, andei por descaminhos a explorar tormentos desnecessários, ou necessários, quem sabe, a me fazerem tornar ao ponto de origem.

E, passado anos, quando a idade agora pesa em meu ser, retomo um capítulo e leio estranha palavra: Aldebarã!

Procuro o significado. Aldebarã é termo místico querendo dizer em secreta e antiga língua nativa; o equivalente ao esquecimento das mágoas. Ou ainda, Aldebarã é alegria amiga. É a calma da noite onde repousa o firmamento, e é a poesia que cala os poetas. Aldebarã são flores que perfumam o caminho do amor, as quais teimei não colher.

E ao sabê-lo estou diante dela, minha mãe, a incutir força neste meu atual estado entristecido, que se vê de recordações dilacerado.

E a palavra lida soa como meiga sugestão:

- Aldebarã é nova esperança. Acredite, viva, meu filho!

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