17 maio, 2006

Nova Crônica

Pcciiiiu e buum, São Paulo calou

Marco Pezão

Tivessem efetuado os disparos em direção às assembléias legislativas, congresso nacional, palácio da alvorada, palácio do governo, câmaras, prefeituras, e teríamos estado de sítio de amplitude nacional.

Diriam: - Está ameaçada a segurança da pátria. Oportunistas querem derrubar as instituições e a plena democracia que este país ora outorga!

No entanto, diante dos atos não direcionados a eles; a classe política tira o corpo fora, literalmente. Como se diz na gíria: Não é com nós!

A opinião pública exige obra repressiva contra quem debilita a ordem. É o direito. Quer justiça. Esse é o caso. Porém, o caos está formado faz tempo. O momento, agora, embora pareça absurdo, é de reflexão.

Vejamos o que temos em São Paulo, onde ocorre o fato, a maior cidade da América Latina.

O governador deixa o cargo e concorre à presidência da república. O recém empossado prefeito abandona o afazer constituído pelos votos das urnas, e se proclama sucessor a governador.

Em seus lugares, outrens. Conhecem a palavra outrens? Soa estranho. Assim, como, os indevidos herdeiros governamentais, da capital e estado.

Ganhos ultrajantes, vindos do sagrado imposto pago. Que os permitem viver bem a vida, a custa de cargos eletivos; ou não? E quando reprovados no referendo popular, há sempre um encaixe em premiadas funções.

Vaidades, interesses pessoais, ou amor ao Brasil?

Retornando a briga, revolta, rebeliões deflagradas em cadeia na metrópole paulista. Soldados morrem. Adversários morrem. Todos, vítimas de uma guerra que não criaram. De um sistema político social econômico ineficaz. Em solo brasileiro, covarde e mesquinho combate civil urbano.

Ataques aos prédios de instituições bancárias? Coisa que não agrava prejuízo à soma de tantos milhões de lucros.

Ficasse na simbologia de um protesto justo. No dano material de argamassa. O sangue gera sangue, retaliação pela parte mais forte.

Os ônibus feito alvo - haja acertos embaixo do pano desse transporte coletivo – cuja vítima é o povo que sofre com o constante horror sobre rodas. Povo brasileiro, e São Paulo é a terra dos brasileiros que aqui se instalam. Os humildes, em busca do trabalho e sonhada dignidade.

Ai, a vida perdida dói. Ah, se dói. Não para quem morreu, mas para quem fica na saudade. Quem são os inimigos dessa batalha sem trégua?

Em forma de punição, os desmandos da nação, mais uma vez, recaem sobre os ombros de quem segura honestamente o rojão dos afazeres. Daqueles que em parecidas diferentes situações lubrificam, alimentam e conservam a máquina constituinte, diariamente. O povo é um joguete sob o bastão da sociedade dominante. Seja quem dê a carta. Já disse Machado de Assis: “O chicote é melhor pra quem tem na mão o cabo”.

Pcciiiu e buum! São Paulo calou os motores. Parou indignada. Pela ação e reação. Nada justifica agressão. Roeu-se a corda, e não foi o rato. Quem sabe, o rei de Roma. Ai! A arrogância do poder, e quem dele mui usufruem.

Sanguessugas, delfins, lalaus, anões, catedrática reeleição, mensalões, casas de dindas e ribeirões. Políticos e empresários, responsáveis pelo porvir...

Fez-se poderosa a voz dos excluídos, temeroso clamor de segunda feira, o medo calando escolas, baixando as portas de empresas e comércio...

Recolhem-se, desconfiados, os não incluídos, habitantes da sofrida periferia.

Já de costas ao balcão, ouvi alguém falar com certa propriedade:

- Lá na parede da cela, entre as grades da prisão, um sujeito escreveu assim: nem todos que aqui estão são, e nem todos que são aqui estão!



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