20 abril, 2005

Conto urbano.

Uma dose de autoridade
(Sacolinha)

Desceu do ônibus e olhou no relógio: Quinze pras dez.
Talvez fosse melhor não parar no bar do Canarinho, mas no ringue do mal pressentimento o sim sempre derruba o não.
Que mal tem tomar uma dose só para abrir o apetite?
E além do mais está escrito no estatuto do subúrbio: É do direito de todo trabalhador que pegou no pesado o dia todo, de fazer uma visita no bar antes de chegar em casa.
É isso mesmo que seu Samuel irá fazer, jogar um traçado goela a baixo. Uma balinha de hortelã esconde o cheiro. E que se dane a esposa se perceber, já basta ter que agüentar o mestre da obra o dia inteiro.
Entrou no boteco cumprimentando os seus colegas que no momento dividem uma garrafa de cerveja e discutem um assunto desses de boteco:
- Que nada rapá, Teodoro fala da muié dele, mas é mó noveleiro também.
Seu Samuel dá risada e pede uma dose de rabo de galo.
Seguindo esta cena um carro da Rota pára em frente ao bar e dele desce quatro fardados com armas nas mãos. Um deles grita para que todos fiquem de costas na parede. Assustado, seu Samuel deixou o copo cair no chão, se dividindo em vários pedaços, e o conteúdo foi respingar justo na calça do policial que dava as ordens. Sem dar tempo para suspense, o mesmo foi de encontro ao trabalhador. Mandou que ele se virasse, deu um tapa barulhento no rosto dele e começou novamente a gritar.
- Você não tem o que fazer não?
Ao invés de estar trabalhando fica no boteco mendigando pinga. Lugar de vagabundo é na cadeia, e é pra lá que você vai. E ainda vai ter que lavar a minha calça.
O trabalhador quis se explicar:
- Mas eu tô...
- Mas é o caralho, vai se explicar com Deus, comigo não. Caminha pra viatura vai, pra dentro do chiqueiro que é o seu lugar.
Enquanto o policial levava o trabalhador pra viatura, os outros cidadãos eram revistados e o dono do bar levava uma bronca:
- Não respeita a lei do silêncio não?
- Mas ainda não é dez horas!
- Meu chapa dez horas é só no papel, nós queremos os botecos fechados ás nove.
O dono assentiu com a cabeça.
Após uns quinze minutos de averiguação, os policiais deixaram o local. Cada um dos que estavam no bar se recolheu para o seu canto.
Ás sete da manhã seguinte, dona Florência, esposa de seu Samuel, já estava apavorada quando recebeu um telefonema da polícia local.
O delegado noticiou o fato com delicadeza. Disse também que os bandidos não se conformaram só em roubar o seu esposo e o mataram com três tiros na cabeça.
Dona Florência ficou com o peso da saudade e com a responsabilidade de ter que criar os quatro filhos sozinha.
Seu Samuel deve estar bebendo uma dose celeste em outro lugar. Quem sabe lá não exista abuso de autoridade?



Currículo do autor:
Ademiro Alves (Sacolinha), nasceu em 09 de Agosto de 1983, na cidade de São Paulo.

É idealizador e atuante do projeto cultural “Literatura no Brasil”, que trabalha com 1.250 leitores cadastrados.

Participa da revista Caros amigos "Literatura Marginal" ato III lançada em Maio de 2004.

Participa de três antologias: “No limite da palavra” editora Scortecci, “ARTEZ - vol. V” Meireles editorial e “O Rastilho da Pólvora” Cooperifa.

Colunista de 05 (cinco) sites nacionais.

Presidente do CPD – Sócio cultural Negro Sim.

Coordenador de literatura na Secretaria Municipal de Cultura de Suzano.

Atualmente Sacolinha procura editora para o seu primeiro livro, um romance intitulado “Graduado em Marginalidade”.

Contatos com o autor:
(11) 47495744 / 83252368
Rua Guarani, 413 – Jd. Revista – Suzano – São Paulo – S.P
Cep: 08694-030
E-mail:
sacolagraduado@bol.com.br

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