03 março, 2006

Entrevista...

exclusiva com o escritor MARCELINO FREIRE!

O autor nasceu em 1967, no alto sertão de Pernambuco. Vive em São Paulo, vindo do Recife, desde 1991. É um dos principais nomes (e agitadores) da nova geração de escritores brasileiros, designada “Geração 90”. Escreveu, entre outros, “Angu de Sangue” (Contos, 2000), “eraOdito” (Aforismos, 1998 / 2002) e “BaléRalé” (Contos, 2003), todos publicados pela Ateliê Editorial, São Paulo. É também editor, tendo idealizado e lançado, em 2002, a “Coleção 5 Minutinhos” (eraOdito editOra), com livros inéditos, distribuídos gratuitamente, de nomes como Moacyr Scliar, Glauco Mattoso, Valêncio Xavier e Manoel de Barros. Em 2003, lançou a segunda versão da Coleção, desta vez destinada às crianças e reunindo escritores como Luis Fernando Verissimo, Ignácio de Loyola Brandão, Haroldo de Campos, Tatiana Belinky, entre outros. Para o ano de 2005, prepara o lançamento da “Coleção 5 Minutinhos”, agora na versão erótica, para ser distribuída em espaços noturnos de São Paulo. É um dos editores da revista de prosa “PS:SP”, lançada, em número único, no ano de 2003. Freire é um dos destaques das antologias “Geração 90 – Manuscritos de Computador” (2001) e “Os Transgressores” (2003), organizadas por Nelson de Oliveira para a Boitempo Editorial e que reúnem “Os melhores contistas brasileiros surgidos na última década do século XX”. Participou, também, de algumas importantes antologias no Brasil e no Exterior, como a “Ficções Fraternas” (editora Record, 2003), “Contos para Ler na Cama” (Record, 2005) e a “Putas”, lançada em Portugal (Quasi Edições, 2002). Alguns de seus contos foram adaptados com sucesso para teatro no Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, e interpretados, em especiais na TV, por atores como Beatriz Segall e Walmor Chagas. Alguns, idem, foram publicados em revistas e jornais do México, França, Estados Unidos e Itália. Em 2004, idealizou e organizou a antologia “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século” (Ateliê Editorial e eraOdito editOra), reunindo 100 autores, como Dalton Trevisan, Millôr Fernandes, Marçal Aquino, Raimundo Carrero, João Gilberto Noll, em microcontos inéditos de até 50 letras. Representou o Brasil no III Encontro de Novos Narradores da América Latina e da Espanha, realizado no final de 2003 em Bogotá, Colômbia. Foi um dos destaques da Jornada Literária de Passo Fundo, RS, edição de 2003. E foi um dos escritores convidados para a segunda edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP, que aconteceu em julho de 2004, sendo apontado, pela imprensa em geral, como uma das “revelações” da Festa. Em julho deste ano, lançou o livro “Contos Negreiros”, o primeiro pela Editora Record. Mais informações sobre o autor e obra, você encontra no www.eraodito.blogspot.com.


L.B: Quem é Marcelino Freire?
Puxa! Que pergunta difícil! Posso responder amanhã? Ou quando morrer? Eta danado! Vamos ver. Creio que eu seja um teimoso. Sou um cara guiado pela teimosia. Inquieto, essas coisas. Tenho isso no sangue por ser sertanejo, filho de sertanejos. Tudo o que eu faço é porque sou teimoso. Não me conformo. Quero questionar. Quero interferir geograficamente nas coisas, enfim. O que mais? Gosto de escrever. Gosto imensamente de escrever. É com essa paixão que vou construindo os meus textos. Movido por essa danação, não sei. Espero que os leitores se contaminem. Teimarei para que isso aconteça. Insistirei...

L.B: Você costuma dizer que escreve para se vingar. Fale-nos sobre isso.
É tanta coisa no meu juízo. Escrevo para exorcizar essas coisas. Soltar os cachorros do peito. Quando eu leio uma notícia, ouço uma frase qualquer, vejo o mundo doente em que vivemos, a minha vontade é de vingança. Escrevo para me enfurecer. Para soltar um grito, sei lá. A vida é uma coisa muito maluca. Eu só não me mato porque tenho medo da morte. Brincadeirinha... Eu escrevo porque não tenho coisa melhor para fazer. Sei lá. Porque é a única coisa que eu não preciso de dinheiro para fazer. Só somos eu e eu. E o mundo.

L.B: O que levou você a escrever o livro “Contos Negreiros”?
Eu queria muito fazer um livro "abolicionista" em pleno começo do novo milênio. E aí eu notei que havia muitos personagens negros em meus contos. Quis reuní-los em um volume. Queria fazer um livro à la Castro Alves, à la Cruz & Sousa. Então fui organizando a coisa. Queria provocar, de alguma forma. Escrevo para provocar idem. Tirar as coisas do lugar. No meu livro [lançado em 2005 pela editora Record) há contos sobre trabalho escravo, tráfico de órgãos, turismo sexual... Livro, assim, sem ser panfletário - e com humor, que é o que alivia a barra. É uma fotografia de nosso tempo, não sei. Sempre dizem que escrevo sobre violência. Costumo dizer que escrevo "sob" violência, entende? Enfim. Ah! No livro, chamo os contos de "cantos". É um livro musical idem. Escrevo sons. Do rap ao repente. Minha literatura segue assim.

L.B: O que você pensa sobre a relação AUTOR NOVO – EDITORA?
Acho que a gente tem vivido um momento muito vigoroso literariamente falando. Muita gente publicando, etc. e tal. No meu tempo (olha como estou ficando velho...) não havia internet, essas coisas. O autor novo hoje não precisa ficar esperando demais por um editor. Pode fazer (e deve) circular os seus textos pela internet. Mas olhe: o importante, sempre, é o cara não ficar sentado na reclamação. Bravejando, gingando o mundo, achando que é um gênio incompreendido. Vá à luta. Publique seu próprio livro, participe de antologias, conheça outros escritores. Movimente-se. Uma editora não pode ser a única culpada. Vá batendo nas portas, chutando espaços, uma hora a sua hora aparece. Insista. Outra coisa: mostre seus textos para quem entende. Quem possa criticar de forma isenta para você ir avançando. Construindo melhor os seus parágrafos. E vamos que vamos.


L.B: Você encontrou dificuldades para lançar o seu primeiro livro?
Como falei, quando comecei a escrever meus primeiros textos não havia essa coisa de internet. A gente tinha mesmo que publicar, correr atrás. Hoje, com um computador, você mesmo pode publicar seu livro, fazer uma tiragem mínima. Meu primeiro livro fui eu mesmo quem publicou: chama-se "AcRústico". Um livro de contos ruim pra caralho, mas que foi importante para eu desovar aqueles textos que estavam na gaveta. Precisava exorcizar aquilo. Então procurei uma gráfica barata e paguei em suaves e humilhantes prestações. Nunca tive muita paciência para ficar esperando editor. Um editor lá no Recife me disse um "não" uma vez. Ele teve todo o direito de dizer "não", mas eu não tinha e não tenho esse direito. Precisava acreditar. Daí nunca mais procurei editores. Publiquei por conta própria também o meu livro "eraOdito", de 98. Aí foi quando apareceu o crítico João Alexandre Barbosa, que conheceu os meus contos e perguntou se eu tinha editora e me indicou para a Ateliê Editorial. Em 2000, publiquei o livro de contos "Angu de Sangue" por lá. João Alexandre além de indicar a editora, escreveu o prefácio, publicou o prefácio na revista Cult e por aí foi indo. Pela Ateliê, publiquei ainda o "BaléRalé" (2003) e organizei a antologia "Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século" (2004), além de editar a revista "PS:SP", em número único. Hoje, estou contratado pela editora Record... Lancei o "Contos Negreiros" o ano passado e tenho mais um livro, esse para o final do ano que vem, começo de 2007. Ufa! E tudo só foi possível porque dei a minha cara para bater com a publicação do "AcRústico", entende? É preciso começar de alguma forma.

L.B: Quais são as suas referências literárias?
Várias. Costumo dizer que escritor tem influência de tudo. Da vida ao seu redor, entende? Tudo e todos viram matéria para a sua prosa, sua poesia. É preciso estar de ouvidos abertos. É sacanagem, por exemplo, dizer que escritor só tem influência de escritor. O porteiro do meu prédio me influencia tanto quanto o Guimarães Rosa. Minha mãe cantarolando Luiz Gonzaga na cozinha foi fundamental para a minha literatura. E por aí vai. Tenho influência do cinema idem, da TV, do DVD, de tudo que vier e ouvir. Repito: é preciso estar aberto. De alma ligada, entende? Mas olhe: o primeiro poeta que li na vida foi o Manuel de Bandeira. Quando o li, quis ser tuberculoso igual ele. Bandeira muito me influenciou. E Graciliano Ramos também. E tanta gente boa que foi aparecendo...


L.B: Comente sobre o romance que está escrevendo.
Pois é, rapaz. Aproveitei o feriadão de Carnaval para retomar alguns parágrafos e detonei tudo. Não gostei de nada. Vou deixar de molho mais um tempo. O romance tem o nome provisório de "Gonza-H". É a história de um adolescente pervertido. Frio, maluco. Daqueles que, do nada, matam a família, depois vão à lan house, essas coisas. Mas, enfim. Aproveitei o Carnaval para mexer em outros textos antigos. E um que avançou legal é um longo texto, romance quase, que mistura Clarice Lispector a Campos de Carvalho. Aproveito os dois escritores para falar de algumas loucuras minhas, algumas doenças existenciais, sei lá. Está ficando malucamente divertido. Vamos ver...


L.B: Na sua cidade natal você atuava no teatro, hoje na literatura pretende produzir dramaturgia?
Então... Eu comecei escrevendo para teatro. Por isso mesmo meus textos têm essa carga dramática. São verdadeiros monólogos. Ladainhas, essas coisas. O teatro muito me influenciou. Mas não me atrevo mais a escrever diretamente para o teatro não. Tem uma carpintaria ali que eu não domino. Prefiro ver os meus contos, hoje, sendo encenados. Houve um espetáculo, lá no Recife, chamado "Angu de Sangue", que fez muito sucesso, ganhou vários prêmios pelo Nordeste (vai até voltar em temporada, agora em abril). Há pouco, os atores Beatriz Segall e Walmor Chagas interpretaram contos meus em um especial para a TV. Fico eu todo orgulhoso. Essa minha volta aos palcos, indiretamente, me anima. Resgata essa paixão que sempre tive pelo teatro. Maravilha!

L.B: Para encerrar, comente sobre o projeto “Coleção 5 Minutinhos”.
Essa Coleção surgiu em 2002. Reuní, à época, dez escritores em textos inéditos, pequenos, feitos exclusivamente para o projeto. São livrinhos curtos, distribuídos gratuitamente em filas de cinema, de teatro, de ônibus. Em salões de beleza, em consultórios dentários. O pessoal diz que não lê porque não tem tempo, então foi por isso que bolei a "Coleção 5 Minutinhos". Saiu uma edição em 2003, também com dez autores, dedicada às crianças. Essa foi distribuída gratuitamente para algumas bibliotecas do país. Ambas as edições estão esgotadíssimas. Há uma previsão de a versão infantil ganhar uma nova tiragem em outubro deste ano. Estou na batalha. Na gaveta, tenho a versão erótica da Coleção, para ser distribuída em filas de motel, portas de cinema pornô, boites gays, etc. Talvez saia ainda este ano também. Já participaram deste projeto nomes como os de Manoel de Barros, Moacyr Scliar, João Gilberto Noll, Luiz Fernando Verissimo, entre outros. E vamos que vamos. Sabe a microantologia "Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século"? Ela faz parte da Coleção 5 Minutinhos. Infelizmente, essa não pôde ser distribuída gratuitamente, mas está dentro dessa filosofia: vapt, vupt. Gosto disso. De tirar um pouco a cara sisuda que a literatura tem. A literatura precisa ir aonde o leitor está. Essa é a minha luta. Xô, naftalina, não é? O meu sonho é ser Roberto Carlos, sabia? Pois é.


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Obs: Essa entrevista será republicada no Fanzine "Literaturanossa", zine que será lançado pela Associação Cultural Literatura no Brasil. Aguardem!

2 comentários:

  1. Legal essa entrevista! Vou procurar uns livros dele!
    E ai Sacola vai colar na Bienal? Quando?

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  2. Marcelino Freire é um escritor do caralho! Tenho três livros dele. O conto que mais gosto chama-se "Darluz", está no BaléRalé. Um soco no estômago.
    Boa entrevista.

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Cidinha da Silva em Suzano