16 março, 2006

Nova Crônica!

A ilusória fúria de um algoz

Marco Pezão

É um jogo de futebol varzeano. Bola rolando, e o placar contrário deixa a torcida do Tubarão furiosa com a atuação do trio de arbitragem. O Sem Saída vai vencendo por 1 a 0.

Ser juiz de futebol na várzea requer, antes de tudo, astúcia. Por melhor que conduza a partida haverá sempre um senão.

E neste campo de terra batida, o Tubarão nada. Os torcedores pedem pro time morder. Querem garra, suor, empenho. Querem festejar o gol que não acontece.

Enquanto isso, no boteco do Ebrinho, encostado no balcão, um cara conhecido por Quarenta, de estatura mediana e forte, pede uma maria mole. O apelido Quarenta vem da chapa que usa no trabalho, numa empresa de transporte coletivo.

Num gole, Quarenta sorveu o liquido e reclamou: “Porcaria de time!”

Nem precisou pedir outra, Meio Quilo já preparava: “Saindo mais uma MM”. Nisso, ouve-se o coro lembrar da mãe do árbitro.

- “Sacanagem! Vou te dizer, se alguém xingar minha mãezinha? Pode ser o homem do tamanho que for, eu derrubo”. E numa golada deixa o copo vazio.

Quarenta circula o campo e aos berros incentiva: “Vai Tubarão, mostra que você é macho!” E se alguém ao lado esbraveja a pesarosa exclamação contra a arbitragem, recrimina: “Ô meu amigo, tá certo que o diabo é safado, mas não bota a mãe no meio!”

De repente, um ataque pela direita. A bola é lançada e o jogador avança livre em direção ao gol. É a grande chance do empate. Porém, para inconformismo geral, a bandeira é levantada e o apito do juiz acusa impedimento. Bastou. Foi a gota. A grade balançou. Quase duzentas vozes em uma só voz: “Ladrão, f da p”.

Não se sabe como ele conseguiu passar. Numa pequena brecha do alambrado transpôs a cabeça, e o resto do corpo foi junto. Parecia ensandecido. Partiu em direção do árbitro que, ao vê-lo, tratou de fugir. O Quarenta correndo atrás, e com a mão direita na cintura segura um volume sob a camisa.

A impressão é de uma arma. Os bandeirinhas, a essa altura haviam sumido. Alguns jogadores se lançaram a persegui-los, mas a maioria pensou em proteção. O corre-corre deu duas voltas no campo e o árbitro chega exausto à porta do vestiário fechado.

Senta desconsolado no degrau. Treme com a zombaria das pessoas aglomeradas no portão de entrada: “Vai morrer! Vai morrer!” Caiu em pranto, e protegendo o rosto com as mãos aguarda a fúria do seu algoz.

A maneira como Quarenta chegou, a postura da mão posicionada é de quem vai sacar um revólver.

- “Pelo amor de Deus”, a angustiada alma bradou.

Naquele tenso momento toca a campainha de um celular. Quarenta levanta a camisa... E, que alívio, era um telefone que ele protegia para não cair.

- Alô, mãe! Tô no campo. Mas, agora? É que... Tá bom, mãe. Tá bom, eu vou, eu vou... Tchau!

Olhares ansiosos acompanham o sufoco do indefeso juiz. Quarenta, falou: “Eu não vou te fazer mal. Vá pra casa e peça perdão à sua mãe, por você ser a causa da difamação dela. E nunca mais apareça aqui para apitar um jogo do Tubarão”. Dito isso, foi saindo entre fracos aplausos, gritos, falas, e muitas vaias...

- “Tanta correria pra nada? Nem sangue, nem porrada...?”

E a decepcionada torcida, então, pro Quarenta entoou: f da p, f da p, f da p...

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